Mitos e dogmas do futebol. I - Circular a bola
O carrossel das Antas. A bola de pé para pé. O passe curto. O jogo rendilhado. A escola holandesa e o dream team de Cruijf.
Coisas do passado.
A componente do treino dos futebolistas de alta competição que beneficiou mais com os recentes desenvolvimentos científicos foi claramente a física. De facto, é hoje perfeitamente possível pegar num bom jogador mas débil atleta e com algum trabalho específico produzir um «monstro» de força, velocidade e resistência. Igualmente se conseguem discernir de modo muito claro os níveis de esforço que o jogador despende num dado encontro ou treino, os patamares a que potencialmente pode chegar e a diferença entre aqueles dois, pressionando sempre mais o seu desempenho. Esta acrescida capacidade física dos jogadores tem efeitos, antes de tudo, na redução dos espaços disponíveis. O «pressing» torna-se muito mais efectivo. O que significa menos linhas de passe. Ou melhor, linhas de passe que mudam constantemente à medida que os jogadores de uma equipa correm como loucos para as fechar e os jogadores de outra se desmarcam como loucos para as abrir. A redução do espaço é concomitante com a redução do tempo. Todas as acções de jogo devem ser aceleradas. A recepção deve ser precisa, idealmente, coincidir com o passe (jogadas ao primeiro toque) ou colocar de imediato o jogador em situação de corrida, drible ou remate. A opção de remate muitas vezes não se coloca entre rematar de primeira vs. dominar a bola e rematar, mas sim em rematar de primeira vs. não rematar de todo, perante a parede de defesas que imediatamente se forma. Assim, não surpreende que a velocidade de desenvolvimento do jogo seja uma das características essenciais dos campeonatos mais competitivos e modernos, destacando-se pelo seu papel pioneiro o futebol inglês, agora tão diferente do que conhecíamos. O que distingue, neste futebol físico, as melhores equipas? A máxima de Cruijf - o segredo para ter a melhor equipa é ter os melhores jogadores - mantém, naturalmente, muito do seu sentido, ainda que "os melhores jogadores" sejam identificados por características algo diferentes do que acontecia. A sua dinâmica e disponibilidade ganham maior importância. Mas o seu desempenho individual perde claramente significado perante a importância da harmonia de movimentações que toda a equipa deve apresentar. É a era em que por vezes se diz, falando das equipas mais agressivas, que os jogadores parecem todos iguais. Vide Grécia. Vide Boavista.
No entanto, de forma algo paradoxal, não é nas acções defensivas que encontramos a fórmula para o sucesso neste novo futebol. O Man United defende pior que metade das equipas inglesas. No entanto, quando na posse da bola, o que faz? Ou o que faz o Arsenal? Ou o Liverpool? Em vez de se deixarem conduzir aleatoriamente pelo desenrolar do jogo, levando a bola para um determinado local apenas porque ali existe espaço livre ou uma linha de passe aberta, procuram forçar a bola para as zonas do campo e as situações de jogo em que podem criar rupturas na defesa contrária. Se Ronaldo está em dia sim, toda a equipa, assim que recupera a posse da bola, movimenta-se no sentido de lhe fazer chegar a bola, e depressa. Se o dia é de Ryan Giggs, a equipa ajusta-se para «castigar» o outro flanco, e se Nistelroy acorda com vontade de pegar na bola e lançar-se sobre os adversários, encontra-a vezes sem conta no seu caminho. O mesmo acontece quando o Arsenal repete sistematicamente jogadas para Henry. Recorde-se ainda a dolorosa forma de buscar livres e cantos perto da área contrária que definiu a vitória grega.
O factor surpresa, e esse outro mito, a famosa «criatividade», não são de todo relevantes. Todos sabemos quais as situações que estas equipas vão tentar criar. Trata-se simplesmente de nos submeter-mos ao seu jogo, suportando-o, ou de as confrontar com rupturas ainda mais terríveis e rápidas, por nossa parte. To be or not to be. O que será mais nobre para o espírito humano?...
O Chelsea escolheu a segunda opção, neste recente jogo. Foi feliz porque foi radical – submeteu-se completamente. Igualmente a primeira opção exige esse radicalismo – vamos fazer sempre o em todas as oportunidades aquilo em que somos claramente melhores, e nunca umas vezes aquilo em que somos razoavelmente bons e outras aquilo em que somos ligeiramente superiores. A alternância não é um valor. Desportos mais maduros técnica e tacticamente, com destaque para o basquetebol, à muito que o demonstram – numa situação de finalização exterior quem lança é sempre o jogador com maior percentagem de acertos, nas jogadas debaixo do cesto quem procura o ressalto são sempre os mesmos jogadores, e os lançamentos de dois pontos são sempre canalizados para o poste ou um extremo.
É claro que neste caso a circulação de bola é limitada pelo tempo concedido para lançar ao cesto, forma brilhante de tornar evidente que a posse de bola não é um fim em si mesmo. O basquete torna igualmente evidente outra realidade, que a complexidade, número de jogadores e extensão do campo de futebol disfarçam – quanto mais tempo temos a bola em nosso poder, sem que nada de objectivo e radical ocorra, mais probabilidade temos de sofrer um fatal contra-ataque.
Propõem-se, então, um novo indicador de eficácia ofensiva das equipas de futebol – um rácio em que o numerador seria a quantidade de remates da equipa e o denominador o seu tempo de posse de bola. Tornaria evidente que uma equipa com 5 remates e 20 minutos de posse de bola (precisa de ter a bola durante 4 minutos para fazer 1 remate) é melhor que uma outra com 5 remates e 40 minutos de posse de bola (precisa de ter a bola durante 8 minutos para fazer 1 remate).
Que lhes parece?
Del Neri concordaria comigo. Curiosamente, os excelentes e certeiros comentários de Fernandez ao jogo do FCP com o Boavista, no ponto em que identificou os aspectos a melhorar, apontam no mesmo sentido.

0 Comments:
Enviar um comentário
<< Home